19.9.05

Gelo

Ele estava escorado no balcão. Bebia um copo de cerveja, e esperava o amigo voltar do banheiro. A música seguia um ritmo incerto, e as batidas se mantinham constantes. Tomou mais um gole, e olhou para os lados.

Ela estava de pé, conversando com algumas amigas. Ele só pode ver suas costas, estampando uma tatuagem grande de uma flor, e sua nuca nua, com os cabelos presos num rabo de cavalo. Seu perfil, quando ela virou, revelava um nariz perfeito, e lábios harmoniosos. Um sorriso de dentes brancos decorava seu rosto quando ela se virou em direção ao bar.

Não sabia se estava embriagado, se era a música, mas a sensação era de que ela caminhava em sua direção quase em câmera lenta. Parou quase ao seu lado, escorou-se, no balcão, e ficou esperando o garçom.

Então ele se deu por conta da própria existência. O gosto da cerveja na sua boca, o suor escorrendo na sua face. Mas, ao mesmo tempo, queria olhar para ela, e falar alguma coisa. Mas sua mente era um branco profundo e sem vida. Decidiu ir ao banheiro, se recompor, enquanto pensava em algo.

Seu amigo ainda estava lá, perdo do vaso sanitário, na dúvida de tentar colocar tudo que havia bebido naquela noite para fora.

Enquanto lavava o rosto, mil histórias se passaram pela sua cabeça. Coisas engraçadas, ou inteligentes, ou simples. Todas elas eram opções. Teria que escolher uma, para tentar quebrar o gelo.

Retornou para onde estava. Desviava do público aglomerado. De longe, enxergou os cabelos loiros, e a identificou no meio da multidão. Mas ainda não havia pensado em nada. Chegaria contando uma piada? Perguntaria seu nome? Diria o quanto ela era bela? Ou simplesmente diria um oi?

E continuou caminhando, até que chegou ao bar, e pediu outra cerveja.

23.8.05

Paixões Modernas

A tela piscou, e uma nova janela se abriu, em meio a editores de texto, páginas de internet e outros programas.

- Oi. - Aparecia escrito, em letras cor de rosa.

Ele não sabia o que escrever. Estava concentrado no trabalho. Não sabia quem era. Então resolveu escrever apenas um outro Oi.

A conversa fluiu. Conversaram até as quatro da manhã. O trabalho dele ficou atrasado. Mas ele estava feliz. Nunca tinha visto a pessoa do outro lado, nem sabe como ela conseguiu seu contato. Hoje em dia é fácil conseguir qualquer coisa sobre alguém.

E as conversas se repetiram. Ele tinha alguém para desabafar. Mas ainda não tinha um rosto. Pensava nela, nas letras que apareciam na tela, mesmo quando não estava no computador. Em qualquer situação, pensava o que o outro lado do monitor diria, que conselho daria.

Até que um dia ela não apareceu. Não dava sinais de vida, nenhuma letra escrita na tela. E ele se sentiu vazio.

8.6.05

Trens

Ele passou pela colocou a passagem no lugar, e cruzou a roleta. Ficou parado, enquanto a escada rolante fazia seu trabalho, e chegou na plataforma. E encostou-se na parede, esperando. Estava com calor, e com tédio, e lembrava-se que a viagem iria durar mais quarenta e cinco minutos. Mais quarenta e cinco minutos de tédio e calor.

Colocou seus óculos escuros, amenizando o reflexo do sol.

E então a viu. Ela descia a escada rolante, e ele passou a não poder mais tirar os olhos dela. Achou que não daria bandeira por causa dos óculos.

Ela passou por ele, e sentou-se no banco próximo. Ele continuou escorado na parede, fingindo casualidade. E ela notou que estava sendo observada por ele.

Não sabia se olhava para ele, para o longe, tentando ver seu trem chegando, ou para o chão, envergonhada. Decidiu olhar para o possível trem.

Ele achou que ela estava olhando para ele, e ficou sem graça.

Dois trens pararam na estação. E ele esperou para ver em qual ela embarcaria. E, ela embarcou no que ia na direção oposta a dele. E ele perdeu o trem.

27.5.05

Sonho

Sonhei que não haviam distâncias entre a gente. Que bastava eu erguer a minha mão, e tocaria teu rosto, e sentiria tua pele macia na ponta dos meus dedos, o calor do teu sangue, se misturando com a minha alma, e a fluidez dos pensamentos não sendo mais do que um instante.

No meu sonho não haviam barreiras, apenas eu e você. Poderiamos ficar juntos pelo resto da eternidade, pois não havia tempo em meu sonho, e um piscar de olhos ou um milhão de anos era apenas um conceito, e nada mais.

Também não havia culpa em meu sonho, e todos os nossos atos não significavam nada, apenas a presença de ambos bastava. Eu não me importava com teus erros, nem você com meus defeitos. Eramos perfeitos.

Mas, em meu sonho, tua imagem começou a desaparecer. Tua perfeição foi deixada para trás, e novamente eu estava sozinho. Deitado na cama, olhando para o teto, e deixado de lado.

Sem dizer adeus.

25.5.05

Ela

Ela preencheu os espaços vazios, dando respostas para perguntas que não queriam calar em meu coração. Atou os nós das pontas soltas da minha vida. O enredo agora estava completo.

Minha busca terminou quando olhei em seus olhos, e me perdi na imensidão esmeralda. Caminhou até mim, e fui tomado de assalto pelo seu beijo. Não ouvi sua voz, apenas senti seus lábios nos meus, e a eletricidade atravessando nossos corpos.

Então ela não me tocava mais. Abri os olhos perdidos, e ela não estava mais lá. Havia apenas o vazio, no espaço que ela havia ocupado. Se tivesse ocupado. Pois, talvez, tudo não passou de uma ilusão da minha mente, uma brincadeira de mau gosto que eu fiz a mim mesmo, em minha necessidade de ser amado por alguém.

5.5.05

Ilusão

E nas graças da deusa adormecida, ele olhou para a verdade.

Não queria acreditar em seus olhos. Aquilo só poderia ser mentira. Seu coração dizia o contrário, que deveria continuar, perpetuar aquele sentimento até que não aguentasse mais. Mas sua cabeça dizia "Pare, está na hora".

As cores do mundo estavam mudando. O colorido estava se tornando cinzento. Uma nova tempestade estava se aproximando, e os olhos negros do furacão já o cobriam, sem dar-lhe esperanças para o futuro.

O coração agora jazia partido, num solo arenoso, onde antes havia um jardim de rosas. E o anjo de asas caídas o observava sobre a lápide, onde ele lia seu próprio nome.

Se iludio, e sem saber, isso custou sua própria sanidade. Mas, agora, não teria mais nada a perder. Continuaria sua busca, até encontrar seu verdadeiro destino.

22.4.05

Momento (Moment in a million Years - Scorpions)

Iniciando a Série "Sons Letárgicos", de escritos baseados em músicas, esta é A Moment in a Million Years, do Scorpions.

As luzes vão diminuindo lentamente. Não vejo mais nada a minha frente, não há mais ninguém, apenas você e eu. Vejo seus olhos olhando para mim, numa distância tão grande que parece impossível alcançar.

Não ouço mais nada, apenas a minha voz. Não ouço a multidão me acompanhar. Vejo os teus lábios se movendo, poesia em forma de música. As batidas da bateria não existem mais. Agora eu sinto apenas meu coração, e dito meu ritmo por ele.

Eu te vejo sorrir, mas também te vejo chorar. A noite está acabando. Nada mudou, porque nada começou, e nada vai terminar. Logo você vai voltar para casa, e eu vou te deixar. As luzes vão se acender, e vai ser tudo que eu tenho pra te dar, um momento em um milhão de anos.

O ônibus está esperando lá fora. Eu vou voltar para a estrada, perseguir mais um sonho esta noite. Eu não vou esquecer deste momento. Nem em um milhão de anos.